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segunda-feira, 27 de outubro de 2025
Psicologia Pedagógica
Reflexões e práticas para
construção docente
Autor: Silvestre Paulo Cardoso Galho, MSc.
(Assistente)
CAPÍTULO
I – INTRODUÇÃO AO ESTUDO PSICOLOGIA EDUCAÇÃO COMO CIÊNCIA
1.1 – Origem/Surgimento
da psicologia da educação como ciência, conceito e objecto de estudo
A abordagem
epistemológica da presente disciplina, remetemo-nos não só à análise do
contributo de alguns teóricos das mais variadas áreas do saber: biólogos como
Charles Darwin, psicólogos como Wundt, Watson, Skinner, J. Stanley Hall,
Thorndike, etc, pedagogos como Rousseau, Pestalozzi, Froebel e tantos outros,
mas também e sobretudo à disputa que existe em relação a ambiguidade da
definição entre Psicologia Pedagógica ou Psicologia da Educação.
Assim, importa
referir que o problema da definição desta disciplina não é recente. Existem
várias fontes de ambiguidade, a começar pela denominação da mesma (Psicologia
Pedagógica ou Psicologia da Educação? Alguns ainda preferem a denominação
Psicopedagogia).
O que se pode
entender em relação a ambiguidade conceitual desta disciplina, é que toda essa
disputa, surge em detrimento de sua pertinência e/ou do lugar que a mesma ocupa
no seio das ciências psicológicas e da educação. Assim, ao longo de todo o
material, o ilustre leitor deparar-se-á com essa questão da ambiguidade
terminológica.
A expressão
Psicologia Pedagógica, enquanto designação de uma subdisciplina da psicologia,
surge pela primeira vez em 1899, no título de uma revista fundada por Kemsies.
Mas na década anterior, isto é, em 1886 já havia sido publicado por Hopkins, o
primeiro livro conhecido com o título Educational
Psychology.
Existem autores
que manifestam uma preferência pela designação Psicologia Pedagógica ou
Psicopedagogia – reconhecida como mais ligada ao vocabulário da psicologia e
das ciências da educação vigente nas línguas românicas, enquanto sob a
influência anglo-saxónica, a denominação Psicologia da Educação tende a
prevalecer.
Todavia, importa referir que as contribuições
epistemológicas não se esgotam com os autores acima referenciados.
Para mais
esclarecimentos sobre os fundamentos epistemológicos da Psicologia da Educação,
apresentamos de seguida embora de forma resumida, os precursores desta mesma
ciência.
Os
precursores
Vários são os
precursores da Psicologia Pedagógica. E, para uma abordagem epistemológica mais
detalhada, é importante olharmos não só para os contributos de cada um dos
precursores, mas impõe-nos também e necessariamente uma análise equidistante do
movimento para o estudo da criança.
Assim, de acordo
com Sílvia Perini (2011), no início do século XX, o movimento para o estudo da
criança marca uma reviravolta de cento e oitenta graus no modo de conceber a
criança, sua natureza e suas relações com a educação. Os estudos de J. Stanley
Hall sobre o crescimento e o desenvolvimento encaram pela primeira vez, e de
modo sistemático, a análise em contextos e em situações concretas: a família, o
grupo social e, sobretudo a escola. O objectivo declarado é conciliar a visão
intelectual e abstracta dos grandes teóricos da educação – Rousseau,
Pestalozzi, Froebel – que embora em ênfases diferenciadas, consideram a criança
naturalmente predisposta a aprender, e o professor, o estímulo e guia de um
processo educativo em sua maior parte auto gerado. Assim, lembramos no entanto
que, com a teoria de Darwin de um lado, e, de outro, as necessidades emergentes
de uma sociedade cujas exigências, causadas pela industrialização e pelo ensino
obrigatório, colocavam os educadores diante de um número crescente de
estudantes relutantes em aprender.
É importante
destacar que no surgimento da Psicologia Pedagógica ou da Educação, há também a
influência da escola funcionalista que, influenciada pela biologia
evolucionista de Darwin, privilegia como objecto de estudo as funções da mente,
e desloca o foco da pesquisa para o comportamento ajustado. Porém, para o
desenvolvimento do funcionalismo e sua difusão no âmbito da Psicologia da
Educação emergente, contribuíram, de modo determinante, dois expoentes de
destaque: John Dewey e James R. Angell, ambos influenciados por William James e
seu livro intitulado ‘’Princípios da Psicologia’’, publicado em 1890 –
reconhecido como um dos livros determinantes para a evolução ulterior de toda a
psicologia.
Assim, o
desenvolvimento da mente, é nesta obra, analisado como produto funcional da
complexidade das experiências em relação as quais a psicologia é chamada a
desempenhar um papel activo, dinâmico e selectivo, e não de simples mediação
passiva. Consequentemente, à educação é atribuído o dever de fornecer
experiências completas que favoreçam a evolução e a consolidação de hábitos
eficazes de aprendizagem.
Da conciliação do
conhecimento, definido em termos programáticos e funcionais por James, com o
processo darwiniano de adaptação – físico, mental e moral – do indivíduo ao
ambiente, nasce o conceito de educação
progressiva, elaborado por Dewey, no qual se encontra, pela primeira vez no
âmbito do estudo da educação, o termo ‘’necessidades’’.
De facto, a formulação deweyana alicerça a educação sobre a compreensão das
necessidades da criança e seu crescimento como reconstrução progressiva da
experiência, pelo facto de que a mente se desenvolve em função das
circunstâncias ambientais e dos problemas que à apresentam.
Outro pensador que
merece destaque como precursor da Psicologia da Educação é Thorndike.
Geralmente citado na história da Psicologia e dentro da tradição
associacionista por suas contribuições fundamentais ao estudo da aprendizagem
com animais. As leis do efeito e do exercício, cuja enunciação baseia-se em
princípios análogos elaborados por Spencer, um dos últimos associacionistas, e
que serão modificadas substancialmente por outros autores, representam uma
ajuda fundamental ao projecto da metodologia de pesquisa, particularmente pela
evidência que atribuem às consequências do comportamento voluntário.
Atribui-se a
Thorndike, por consenso geral, a paternidade do nome, a primeira definição de
Psicologia da Educação como disciplina autónoma, o reconhecimento dos temas
críticos que a definem, uma descrição inovadora de como aplicá-la, bem como o
primeiro tratado de metodologia estatística aplicada à pesquisa educacional
(Sílvia Perini, 2011).
Assim, a história
da psicologia ensina-nos que, nas primeiras décadas do século XX, com a
implantação progressiva da escolarização organizada e obrigatória (nos países
ocidentais), surge a necessidade de se introduzirem mudanças significativas no
ensino. As expectativas relativas à elaboração de uma teoria educativa de
fundamento científico, que permita melhorar o ensino e intervir sobre os
problemas que se apresentam na escolarização generalizada, são depositadas na
Psicologia, nascendo assim a Psicologia da Educação.
A Psicologia da
Educação é frequentemente vista como sendo mediadora entre a Psicologia e a
Educação, tendo os psicólogos da educação aplicado os conhecimentos, os métodos
e os princípios da Psicologia ao estudo dos fenómenos educativos. Sprinthall e
Sprinthall (1990: 3) questionam: Psicologia Educacional: Uma ponte entre dois
mundos?
Considerando que a Psicologia da Educação se debate, desde a sua existência, com um problema de identidade, exactamente devido a posição que ocupa entre as duas disciplinas, Sprinthall e Sprinthall referem que a Psicologia da Educação é uma ponte em construção entre dois mundos, entre duas tradições diferentes, não sendo suficientemente científica para a Psicologia, nem suficientemente prática para o ensino. Contudo, a Psicologia da Educação pode também ser assumida como uma disciplina com objectivos e conteúdos próprios, sendo considerada um dos ingredientes necessários para fundamentar cientificamente a educação e o ensino (Salvador et al., 1999: V).
Conceito
e objecto de estudo
Para que se
compreenda o conceito e objecto de estudo da Psicologia Pedagógica, fez-se
recurso à experiência de Feliciano H. Veiga (2013), p. 29, onde o mesmo afirma
que o termo Psicologia da Educação encontra-se, por vezes como equivalente a
Psicologia Pedagógica, Psicopedagogia ou Psicologia Escolar. Convém, no
entanto, distinguir tais expressões. A Psicopedagogia
ou Psicologia Pedagógica, sobretudo na literatura francesa, remete para o
processo desenvolvimental e para teorias educativas não restritas ao contexto
escolar. A Psicologia da Educação tem destacada importância, quer na formação
de professores quer na formação de psicólogos, sobretudo escolares.
Acerca da
distinção entre Psicologia da Educação
e Psicologia Escolar, a ‘’American
Psychological Association’’ (APA) liga a primeira mais à investigação e a
segunda mais à aplicação prática (Barros, 2007), citado por (Veiga, 2013).
Assim, pode-se
aqui afirmar, concordando com Gaston Mialaret, (2000, p. 16), que a psicologia
escolar é nada mais nada menos que a psicologia da educação dentro de um dado
processo educativo formal: a turma ou o estabelecimento de ensino.
A psicologia
pedagógica ou psicopedagogia também conhecida como psicologia da educação é definida
como sendo a ciência que estuda os
fundamentos psicológicos da acção educativa.
Nessa ordem de
ideias, pode-se efectivamente depreender que a Psicologia Pedagógica como
unidade curricular que estuda os fundamentos psicológicos da acção educativa, tem
como objecto de estudo os processos de mudança comportamental,
provocado ou induzido nas pessoas como resultado da sua participação em
actividades educativas.
Os processos de mudança privilegiados pelos psicólogos da educação são os processos psicológicos (sensação, percepção, memória, aprendizagem, etc.), e consistem ou podem relacionar-se com a participação das pessoas em actividades ou situações educativas. É imprescindível, portanto, considerar igualmente as características das situações educativas.
Finalidades da Psicopedagogia
A finalidade de
qualquer disciplina científica, pode ser encontrada basicamente imbricada tanto
no seu conceito como no seu objecto de estudo. Assim, para a compreensão das
finalidades da Psicologia Pedagógica ou Psicologia da Educação, fez-se recurso
à (Coll, 2000), o qual afirma que a Psicologia da Educação estuda os processos
psicoeducativos com três finalidades:
1ª – Contribuir para a elaboração de uma teoria
explicativa dos processos psicológicos;
2ª – Elaborar modelos e programas de intervenção
dirigindo a sua acção sobre eles com uma finalidade determinada;
3ª – Dar lugar a prática educativa coerente com
propostas teóricas formuladas.
Para que a Psicologia Pedagógica consiga cumprir com as finalidades acima referenciadas, é imperioso que tenha em atenção os meios e o fim último do processo de ensino-aprendizagem. Assim, (Sprinthall & Sprinthall, 1990), identificam quatro problemas sobre os quais a Psicologia da Educação se pode debruçar, no que se refere ao contexto escolar: os alunos, os professores, as estratégias de ensino e o conteúdo a ser ensinado. Assim, esta disciplina poderá ter um papel importante na reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem, a relação pedagógica, a gestão da sala de aula, entre outros aspectos.
CAPÍTULO II – A EDUCAÇÃO
COMO FENÓMENO TRANSFORMADOR
Os psicólogos da
educação, visam contribuir para a compreensão e melhoria da educação e do
ensino, oscilando entre posturas mais centradas nos processos psicológicos e
posturas mais centradas nos componentes educativos, verificando-se também uma
tendência para alargar o âmbito de acção a outros contextos educativos, como a
família (Coll, 2000).
Assim, podem ser
identificadas, actualmente, três posturas ao nível da Psicologia de Educação
(Coll, 2000):
1ª – Autores que
entendem a Psicologia de Educação como um mero campo de aplicação dos
conhecimentos da Psicologia, isto é, uma psicologia aplicada à educação. Esta
postura foi a predominante até aos anos 50, contando ainda com alguns
defensores. Nesta perspectiva não se pode considerar a Psicologia da Educação
uma disciplina com identidade própria (não tem um objecto de estudo particular,
nem gera conhecimentos sobre esse objecto de estudo).
2ª – Autores que
consideram os conteúdos da Psicologia da Educação como devendo ser integrados
numa disciplina mais ampla, que teria como objectivo a apreensão global dos
fenómenos educativos (por exemplo, Biggs em 1976, citado por Coll em 2000,
sugeria a Educologia, uma ciência que
estudaria o logos da educação). Esta
perspectiva defende a existência de uma ciência integrada da Educação que
incluiria contribuições de outras áreas do conhecimento, como a Filosofia, a
Sociologia e a História.
3ª – Algumas
propostas intermédias encaram a Psicologia da Educação como uma
disciplina-ponte entre a Psicologia e a Educação, salientando a necessidade de
ter em conta tanto os processos psicológicos como as características da
situação educativa, e evidenciando o seu carácter aplicado. Assim, esta
disciplina pode contribuir de forma original e substancial para o conhecimento
psicológico e para a prática educativa, não se limitando a aplicar o
conhecimento da Psicologia á educação e ao ensino. É necessário, assim,
efectuar pesquisas aplicadas, dirigidas aos problemas, factores e variáveis das
situações educativas. Nesta perspectiva, a mais defendida na actualidade,
continua a verificar-se alguma falta de consenso em termos de objecto de estudo,
pois pode restringir-se às práticas educativas escolares ou alargar-se a outras
práticas educativas.
Conceito De Educação
O conceito de educação é plurissemântico, o que produz alguma ambiguidade da sua interpretação. As limitações conceptuais a respeito do termo devem ser analisadas dentro dos seus variados contextos e particularidades.
Dificuldade conceptual
O desafio de
definir convenientemente a ‘’educação’’, leva vários autores a reflexões
profundas sobre o que a mesma se propõe e, os meandros de sua materialização no
contexto real da sociedade humanizada (Galho, 2020). Assim, (Doron & Parot,
2001), afirmaram que, efectivamente, a ideia de educação revela-se triplamente
resistente a uma apreensão conceptual, no sentido de que, antes de ser uma
noção/conceito, a educação designa uma
experiência, um desafio, uma aposta: uma experiência
intersubjectiva, um desafio moral e político, uma aposta na concorrência entre
as ciências humanas.
De acordo com o
exposto acima, convém referir que, segundo (Pessanha, et. all, 2010), o
conceito de educação tem sido definido por diversos autores e em diversos
contextos. Muitas vezes o mesmo é confundido com outros conceitos, como desenvolvimento, aprendizagem, instrução,
saber, cultura etc. Contudo, estes termos não são sinónimos, apesar de
inter-relacionados. Por exemplo, considera-se que as práticas educativas têm
uma função primordial no desenvolvimento humano, devendo a educação ser
considerada um dos factores explicativos básicos das mudanças psicológicas que
as pessoas experimentam.
Na linguagem
comum, o termo educação assume frequentemente significados morais. Como refere (Simões,
2007), citado por (Pessanha, et. al, 2010), dizer que um indivíduo é educado,
implica referência a um código de conduta, às boas maneiras, porventura mesmo,
à excelência de carácter. Mesmo numa escola, os professores queixam-se
frequentemente de alunos mal-educados e elogiam os alunos bem-educados. Nessa
ordem de ideias, (Simões, 2007) considera que a educação se refere à educação
moral e a essência da educação é o agir
com rectidão moral.
Já os irmãos (J.
H. Barros e A. M. Barros, 1996), definem educação como: acção intencional ou
voluntária, de um adulto ou educador sobre uma criança ou educando, usando
métodos mais ou menos autoritários ou dialogantes, tradicionais ou modernos, de
modo a levar a criança ou a ajudá-la a desenvolver todas as suas
potencialidades (educação integral ou holística).
Até aqui, a
educação é ainda vista como visando a inserção do indivíduo numa sociedade que
se pretende ordenada e harmónica (Estrela, 2002). Esta definição, é de certa
forma concordante com a postura de (Durkheim, 1966), que tal como é referido
por (Postic, 1984), todos citados por (Pessanha, et. al 2010), considerava que
o sistema de educação não teria em vista, em primeiro lugar, o desenvolvimento
do indivíduo, mas seria um meio de a sociedade o integrar nas suas estruturas.
Importa referir
aqui, que o desenvolvimento a que se refere o parágrafo anterior, tem que ver
com a ascensão social do indivíduo. Portanto, até aqui, apenas falou-se da
educação informal e não da educação como um processo formalizado.
Porém, não
obstante as diversas compreensões acerca do conceito de educação, a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (DUDH), - que delineia os direitos humanos
básicos, adoptada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, no seu
artigo 26º, preconiza que a educação formal, normalmente encarada como aquela que ocorre em contexto escolar, é um direito fundamental.
1. Toda
a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a
corresponder ao ensino elementar fundamental, (correspondente ao Ensino
Primário em Angola). O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e
profissional deve ser generalizado; o acesso ao ensino superior deve estar
aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
2. A
educação deve visar a plena expansão da personalidade humana e o reforço dos
direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão,
a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou
religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a
manutenção da paz.
3. Aos
pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar
aos filhos.
2.1
– Educação Vs Instrução – o dilema da decadência dos valores morais
Debate:
Reflexões e contextualizações
Para o
desenvolvimento do espírito crítico, racional e inteligente, propõe-se ao
público leitor que analise o artigo 26º da Declaração Universal dos Direitos
Humanos e seus dispostos 1, 2 e 3, tendo em conta o que acontece na prática
real da sua comunidade.
Att: A reflexão deve se
apartar de qualquer paixão, paixonite e/ou afinidade, para que se possam
encontrar as verdadeiras gralhas existentes no processo e, consequentemente
propor soluções para o desenvolvimento da educação formal ou como muitos
preferem, processo de ensino-aprendizagem (Galho, 2020).
2.2 – A educação hoje
e as novas perspectivas face às demandas da sociedade.
Debate:
Reflexões e contextualizações
Ao longo do debate deve-se olhar
para as finalidades da educação formal dada em Angola, compreendendo que, em qualquer parte do mundo, a
educação formal é de responsabilidade de quem governa. Assim, pode-se afirmar
que, é aquele que governa quem define as linhas mestras da educação formal ou
do processo de ensino-aprendizagem. Em outras palavras, está a se afirmar que,
é aquele que governa quem define o tipo de homem que pretende formar.
Recomenda-se a consulta dos
normativos jurídico-legais que definem de modo geral e particular as políticas
educativas em Angola (Leis,
Decretos e outros).
CAPÍTULO III – A ESCOLA COMO
ESPAÇO RELACIONAL
No presente
documento, compreende-se a escola como todo
o estabelecimento formal de ensino que, com base nos currículos e na actuação
de seus agentes eleva principalmente o nível de conhecimento dos intervenientes
directos do processo de ensino-aprendizagem para patamares superiores dos
anteriores.
Considerada como espaço privilegiado da relação pedagógica,
a escola do século XXI deve, necessariamente, ser transformada num espaço de intervenção psicopedagógica,
e o professor num multiplicador da inteligência
espiritual, capacidade que lhe atribui a qualificação de mediação, e como
mediador da formação do aluno, o professor deve perceber a necessidade
imperiosa de se estabelecer um diálogo capaz de eliminar as barreiras que
impedem a difusão do conhecimento.
Acreditamos que, na
realidade angolana, muitos professores ainda não são/estão verdadeiramente
conscientes de como é importante a sua actuação na formação das novas gerações
de pensadores. E, associado a essa dificuldade junta-se a questão da verticalidade dos programas curriculares e
currículos, para não falar da falta
de preparação de muitos gestores de estabelecimentos escolares.
Assim, para a
escola desempenhar as suas funções é necessário que todas essas questões sejam
acauteladas e deve haver um esforço conjunto para a materialização dos
objectivos escolares.
3.1 – Funções
sociais da escola
De
acordo com (Pessanha, 2010), a escola desempenha essencialmente 5 funções
sociais, a saber:
1. Função
intencional de transmissão do saber cultural:
2. Função de apoio psicopedagógico;
3. Função
política;
4. Função
económica;
5.
Função de igualização das
oportunidades.
1.
– Função intencional de transmissão do saber cultural
A escola é
impreterivelmente um espaço de trocas de experiências pelo facto de albergar
uma heterogeneidade de individualidades. É um lugar de propagação e interacção
da cultura e do conhecimento científico, principalmente. Por isso, convém
reforçar a ideia segundo a qual a educação formal não se circunscreve apenas à
transmissão do saber científico, mas antes de mais nada e sobretudo na
ampliação da capacidade de relacionar os conteúdos para construir
interpretações pessoais e multiplicar inteligências.
Desde a sua génese
até os nossos dias, a escola sistematiza os conteúdos por ela ministrados.
Estes estão intrinsecamente ligados aos objectivos educativos defendidos pela
classe dominante. Sistematizados nos currículos escolares, os conteúdos
carregam em si de forma subtil o poder de transformação da mentalidade humana.
Não é atoa que se afirma que a educação é a arma mais poderosa de uma nação.
Por isso, a escola
sistematiza os conteúdos de modo intencional ou propositado, pois quem
planifica a educação é sempre aquele que governa. Nesse âmbito, o tipo de homem
formado pela escola é consequência de uma política educativa bem definida.
2
– Função de apoio psicopedagógico
Está
cientificamente provado que o apoio psicopedagógico é cada vez mais importante
e necessário para o crescimento e desenvolvimento dos alunos e estudantes de
todos os níveis de ensino, porque é através destas actividades e experiências
de estudo diferenciadas e diversificadas que as aprendizagens académicas se
tornam mais significativas.
O correcto e
recomendável é a instalação e funcionamento de um gabinete de apoio
psicopedagógico nas escolas (GAP), pois acreditamos que este tipo de apoio é a
chave para o sucesso de muitos alunos, pelo facto de cada aluno pensar, sentir
e agir de modo diferenciado. Por isso, é de todo necessário olhar sempre de
modo particular cada gesto e acção do aluno, pois cada gesto, cada acção do
aluno traduz as suas dificuldades e os seus pontos fortes.
Compreendemos
perfeitamente que os alunos não são todos iguais e acreditamos que trabalhar de
forma personalizada com cada um deles é deveras dificultoso, porém bastante
vantajoso. Assim, o investimento em apoios cada vez mais especializados tem
sido um motor importante no sucesso dos alunos que vêm cada vez mais valor em
obter experiências de aprendizagem únicas, feitas à sua medida.
A função de apoio
psicopedagógico da escola traduz-se no suporte especializado que esta deve dar
aos alunos para a sua devida acomodação e adaptação após o ingresso, bem como o
reforço das aulas com principais dificuldades. Para que esse trabalho tenha
resultados satisfatórios é necessário identificar a origem das dificuldades do
aluno para que se possa fazer uma correcta estimulação cognitiva das áreas que
apresentam as maiores dificuldades.
Através da função
pessoal de apoio psicopedagógico a escola produz um conjunto de melhorias nas
competências de aprendizagem e de estudo dos alunos, promove a auto-estima e
motivação dos mesmos.
Na materialização
dessa função social da escola recomenda-se aos professores, psicopedagogos e
outros profissionais que compõem a instituição de ensino que redobrem a atenção
àqueles alunos que apresentam um fraco desempenho escolar, sem causa aparente,
ou apresentam ainda sinais de alerta no que toca ao estudo e à concentração.
Esta função,
reside fundamentalmente no apoio psicológico para a integração e socialização e
o apoio pedagógico para a adaptação e aprendizagem dos conteúdos
intencionalmente transmitidos.
Convém recordar
que ao ingressar para o sistema escolar, a criança deixa o convívio familiar e
ingressa para um novo ambiente de convivência que pode em muitos casos ser
agreste caso a mesma (criança/aluno) não tenha o apoio psicopedagógico
necessário. Portanto, relativamente a esse quesito, urge a necessidade da
família preparar a criança para ingressar ao sistema escolar de modo a
minimizar os choques que podem advir dessa mudança de ambiente de convívio.
3
– Função política
Com o propósito de
formar o cidadão capaz de intervir na vida pública a escola provoca no aluno
desenvolvimento de conhecimentos, ideias, atitudes e pautas que permitam sua
incorporação na vida política e social, esferas que requerem “participação
activa e responsável de todos os cidadãos considerados por direito como iguais”
(Gómez, 1998, p. 20).
Importa
referenciar que a função política não traduz a indução, persuasão tão pouco a
obrigação dos alunos aderirem em determinados partidos políticos. Pelo
contrário, a correcta materialização dessa função eleva a escola como agente de
socialização secundário à agência de cidadania e transformação democrática.
No âmbito do
exposto acima, acrescenta-se o argumento segundo o qual, pensar a escola como
agência produtora de conhecimento e transformação, pressupõe-se que em seu
interior os sujeitos envolvidos no processo educativo devem pensar os
objectivos educacionais a partir de concepções baseadas na reflexão crítica e
interrogante sobre o mundo (Schvarz, 2015, p. 10).
O autor acima
afirma ainda que a fragilidade nas convicções dos sujeitos a respeito do papel
emancipador da escola impede que esta exerça sua função política, aumentando
significativamente a distância entre a escola que se quer e a escola que se faz
efectivamente.
No seu artigo
intitulado ‘’a função política da escola: uma reflexão em gramsci sobre a
escola que fazemos e a escola que queremos’’ o autor traz o pensamento político
gramsciano que subsidia a interpretação do papel político da escola,
evidenciando elementos hegemônicos determinantes no impedimento da formação da
consciência crítica. Sujeitos acríticos permanecem em estado de inércia,
alheios ao mundo a que pertencem, servindo alienadamente à demanda dos
imperativos de um sistema que determina sua servidão.
A logicidade e
eloquência reflexiva dos argumentos do pensamento político de Gramsci
apresentado por (Schvarz, 2015) faz-nos levantar a seguinte questão: ‘’como a
escola materializa a função política?’’ Para responder a essa questão, é
necessário lembrar que a política na sua verdadeira essência não se traduz em
representação partidária, tampouco na politiquice (contrário de política
partidária) ou desvirtuação das normas democráticas que se verificam hoje no
exercício do poder político.
Assim, respondendo
a questão acima, assegura-se no presente trabalho que a escola em geral e em
particular o professor em sala de aulas materializam a função política
ensinando ao alunos a aprenderem a respeitar as ideias e pontos de vista dos
outros. Quando o professor ensina os alunos a respeitarem as opiniões dos
outros/colegas embora não concordem com elas; quando o professor ensina que os
mesmos devem respeitar as diferenças culturais, sociais, religiosas, etc., está
implicitamente a materializar a função política, pois esses (alunos) aprenderão
a conviver na diferença.
Os alunos aprendem
através da materialização da função política que embora as pessoas pensem
diferente ou divirjam em termos de opiniões e escolhas partidárias não são
inimigos. Assim, se constrói uma sociedade harmónica.
4
– Função económica
Desde os
primórdios da humanidade a economia sempre esteve ligada as trocas comerciais,
transações monetárias, produção de bens e serviços, salários ou remunerações
dos funcionários independentemente das classes em que operam.
Assim, para melhor
esclarecer essa questão, recorremos a (Freitas, 2003, s/p), no qual assegura
que nas sociedades pré-capitalistas ou anteriores ao capitalismo, o sistema de
ensino também cumpria funções económicas e ideológicas, mas diferentes das
cumpridas hoje pela sociedade capitalista. Porém, nessas sociedades não existiam
condições de edificação de um sistema de ensino massificado. O capitalismo e o
socialismo foram os únicos modos de produção conhecidos na história da
humanidade que conseguiram gerar uma acumulação produtora de um excedente
social que podia ser destinado ao sistema de ensino massificado.
O sistema
económico passou a exigir um sistema de ensino para a sua reprodução. Nessa
perspectiva, concordamos com o autor quando afirma que a massificação da escola
pública é fruto da dupla revolução do final do século XVIII, a industrial e a
francesa. A industrial deu a base económica e a francesa a base política e
ideológica. Isso não significa que imediata e mecanicamente tenha ocorrido a
massificação dos sistemas de ensino.
O autor acima
afirma que na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos, os sistemas de ensino
foram de facto massificados a partir do final do século XIX e início do século
XX. Existiram vários debates nesses países sobre o papel do sistema de ensino,
a massificação dos sistemas de ensino não ocorreu de forma lenta. Foi o
processo de desenvolvimento tecnológico da indústria e a conformação do Sistema
Imperialista, com a Segunda Revolução Industrial, que criou as condições
necessárias para a consolidação dos sistemas de ensino. Foram as necessidades
produtivas de apropriação da mais-valia relativa que criaram a pressão
necessária para a massificação dos sistemas de ensino, pois era necessário
educar os operários para o manuseio mínimo das máquinas e da nova tecnologia.
Nessa ordem de ideias Freitas afirma que:
Para
apoiar o desenvolvimento das forças produtivas, necessitou de uma escola que
preparasse rapidamente, e em série, recursos humanos para alimentar a produção
de forma hierarquizada e fragmentada – e isso só era possível ser feito de
forma escolarizada. (Freitas, 2003, p. 26).
Todavia, apesar do
acima asseverado, compreende-se que a massificação do ensino trouxe para o
processo de enino-aprendizagem vantagens e desvantagens. Embora não sejam
objecto da nossa investigação neste trabalho, convém esclarecer que as
primeiras (vantagens) estão relacionadas com o acesso descegregado às salas de
aulas, ou seja, todos sem distinção de classe social, cor, raça, etnia ou credo
religioso, equanto as segundas (desvantagens) têm a ver com a homogeneização
das práticas pédagógicas (ensinar todos como se fossem um só). A homogenização
das práticas pedagógicas toruxe consigo o famoso insucesso escolar.
Já (Ponce, 2001),
argumenta que a escola cumpre o seu papel de aparelho ideológico do Estado,
isso é inegável, mas para além disso, a escola cumpre funções económicas para a
reprodução do modo de produção capitalista. O fim das escolas representaria um
grande problema ideológico e econômico para a reprodução do capitalismo. O que
queremos chamar a atenção é para o aspecto de que as escolas cumprem um papel
específico no sistema de produção capitalista, permitindo a existência de uma
forma determinada de acumulação do capital.
Para (Freitas,
2003), é necessário esclarecermos que não estamos defendendo que no momento
político e econômico atual, do início do século XXI, haja um interesse por
parte do grande capital em preservar ou avançar nos investimentos educacionais.
A profunda crise
económica e política do sistema imperialista está levando ao que Freitas chama
de sucateamento global dos sistemas de ensino. Este sucateamento é segundo o
autor acima citado consequência da redução de investimentos em educação. Isso
representa um problema para os povos do mundo. Mas por outro lado, a crise
política e económica do capital não levará ao fim dos sistemas de ensino, pois
fundamentalmente eles cumprem as funções de reprodução do capitalismo, tanto a
reprodução ideológica como a reprodução econômica. Portanto, na atual crise
capitalista, é necessário investir a menor quantidade possível de excedente
social no sistema de ensino sem ser decretado o seu fim, pois essa seria uma
prática antieconómica.
Contraditoriamente
a dinâmica social anterior, hoje a sociedade vive uma dinâmica económica que
induz à submissão, à disciplina e à aceitação das diferenças sociais. Nessa
esfera a contradição agrava-se: a escola deve formar os alunos para sua futura
incorporação em que mercado de trabalho? Do trabalho assalariado que requer
submissão e disciplina? Ou do trabalho autónomo que, ao contrário, requer
actividade e criatividade?
Frente a uma
função tão complexa e contraditória a escola apresenta:
uma
ideologia tão flexiva, frouxa e eclética [...] cujos valores são o
individualismo, a competitividade, a falta de solidariedade, a igualdade formal
de oportunidades e a desigualdade “natural” de resultados em função de
capacidades e esforços individuais. Assume-se a ideia de que a escola é igual
para todos e de que, portanto, cada um chega onde suas capacidades e seu
trabalho pessoal lhes permitem (Gómez, 1998, p. 16).
Esse processo
consagra a escola como reprodutora da arbitrariedade cultural num meio que
estimula a competitividade, em detrimento da solidariedade, desde os primeiros
momentos da aprendizagem escolar. Confirmando os dizeres de (Bourdieu e Gómez, 1998,
p. 16) conclui que a escola socializa preparando o cidadão para aceitar como
natural a arbitrariedade cultural. Porém, o processo de reprodução nem é
linear, nem automático, nem isento de contradições e resistências; o processo
de socialização acontece também em consequência das práticas sociais. A escola
é um cenário de conflitos.
5
– Função de igualização das oportunidades
Para explicar a
forma como a escola materializa a função de igualização das oportunidades nos
socorremos primeiramente ao pensamento crítico de Bourdieu quando assegura que:
A acção da escola
não se dirige no sentido de dar a todos os meios de adquirir aquilo que não
lhes é dado. Ela é o lugar de transmissão do saber que recebe e trata os alunos
como iguais, a despeito da disparidade cultural. Com isso sanciona as
desigualdades que só ela poderia reduzir. Considerando que o domínio da cultura
erudita requer o conhecimento do código segundo o qual ela está codificada e
que o domínio do código só pode ser adquirido mediante uma aprendizagem
metódica e organizada caberia à instituição escolar “desenvolver em todos os
membros da sociedade, sem distinção, a aptidão para práticas culturais que a
sociedade considera como as mais nobres” (Bourdieu, 1999, p. 62).
O investigador
francês em referência analisa a função reprodutivista da escola que, embora aja
no sentido de conservar as desigualdades e reproduzir as classes sociais,
poderia ser também um espaço de socialização caso lutasse por um trabalho no
qual oferecesse aos filhos das classes populares condições de adquirir o
capital cultural que não herdaram. Porém, o autor francês considera ingenuidade
supor que do funcionamento da escola, tal como está organizada, possam surgir
as contradições capazes de determinar uma transformação profunda “e de impedir
a instituição encarregada da conservação e da transmissão da cultura legítima
de exercer suas funções de conservação social” (Bourdieu, 1999, p. 62).
A função de
igualização das oportunidades é a quinta função da escola. E, relativamente a
essa função, os autores (Masschelein e Simons 2017, p. 66) defendem a ideia
segundo a qual o respeito ao reconhecimento de que todos os alunos possuem
igual capacidade e, por isso, a escola e os professores oferecem a oportunidade
de iniciar algo bastante importante.
Na lógica do
exposto acima, afirmamos que cada aluno possui suas particularidades, suas
culturas, umas diferentes das outras pois o país é multicultural, por isso, é
importante que cada professor de modo individual acredite no potencial da
singularidade do seu aluno:
“[...]
a escola, nesse sentido, sempre tem a ver com a experiência da potencialidade”.
Queremos aqui chamar atenção que tal como afirmam Masschelein e Simons, não se
trata de legitimar as diferenças baseadas em aspectos naturais de
desenvolvimento, condições sociais ou oportunidades; trata-se de rechaçar essa
ideia e admitir que todos, sem exceção, podem estudar e conhecer. A escola é,
pois, “[...] um tipo de vácuo no qual é dado tempo aos jovens e aos alunos para
praticarem e se desenvolverem” (Masschelein e Simons, 2017, p. 73).
A igualização de
oportunidades a que se refere o presente trabalho é a busca de um modo de
redução das desigualdades existentes. Assim, a escola potencia os alunos com
ferramentas suficientes para que tenham a igualdades de oportunidades quando
por exemplo vários alunos que fizeram o mesmo curso ou a mesma formação tiverem
que concorrer/disputar uma vaga de serviço por exemplo, estejam todos em mesmo
pé de igualdade, pois a homogeneização do ensino propicia o facto. Porém, é
necessário emancipar as diferentes inteligências.
O nosso
entendimento é de certo modo concordante com o entendimento de Rancière (2011,
pp. 11-12) quando afirma que não se trata de “[...] reduzir tanto quanto possível
a desigualdade social, reduzindo a distância entre os ignorantes e o saber”,
mas trata-se de “[...] obrigar a quem quer que seja a verificar a igualdade de
inteligências” (Ibidem). Para fazer essa verificação, é necessário compreender
esse princípio e adoptá-lo nas diferentes práticas escolares.
É nosso
entendimento que a escola promove a emancipação intelectual com o propósito explícito
de devolver a cada cidadão a igualdade que a ordem social lhe recusou algum dia
e lhe recusaria sempre, por sua própria natureza. Por isso, é extremamente
necessário prestar atenção ao modo como se ministram os conhecimentos, pois a
partir deles se reconhece o princípio filosófico da igualdade de oportunidades.
Todavia, alinhamos mais uma vez no diapasão do autor acima referenciado que
mais do que reconhecer esse princípio é necessário pensarmos os modos como os
professores podem colocar em acção tal princípio.
3.2 – A relação
pedagógica como ponto de partida para a construção do futuro docente.
Num sentido lato,
a relação pedagógica abrange os intervenientes directos e indirectos do
processo pedagógico (aluno-professor, professor-professor,
professor-funcionários, alunos-funcionários, professores-pais) e, num sentido
restrito, abrange a relação professor-aluno e aluno-aluno, em situações
pedagógicas.
Define-se relação
pedagógica: o contacto interpessoal
gerado entre os vários intervenientes da situação pedagógica e o resultado
desses contactos denominam-se de relação pedagógica. Nesta relação, o
professor terá de ser um assistente e facilitador da aprendizagem, dinâmico,
interventivo e estimulador do desenvolvimento cognitivo e socioafectivo do
aluno.
Postic (1984)
considera a escola o local privilegiado da relação pedagógica. Aquela, com suas
características, acaba por, de algum modo, condicionar o tipo de relações que
se estabelecem. Contudo, mesmo dentro de uma mesma escola, podem encontrar-se
relações com características muito variadas, sendo, portanto, mais adequado
falar-se em relações educativas do que em relação educativa. Segundo o mesmo
autor, a relação pedagógica é determinada por vários factores, tais como:
1º - Os papéis e
estatutos do docente e do aluno;
2º - A
representação do parceiro;
3º - A função do
docente.
Na situação
educativa, o estatuto refere-se à posição do aluno e do professor,
relacionando-se com modos de hierarquização e distâncias introduzidas na
comunicação e o papel relaciona-se com o tipo de actuação esperado do
indivíduo que ocupa uma determinada posição no sistema de relações (Postic,
1984). É importante recordar que apesar das múltiplas transformações pelas
quais a escola tem passado, continua a ser uma organização muito hierarquizada,
sendo que o professor é encarado como ocupando uma posição superior. Mesmo
entre alunos, verifica-se frequentemente uma hierarquização que pode depender,
por exemplo, da idade, do nível de conhecimentos, etc. A noção de função do
docente relaciona-se com as noções de papel e de estatuto, referindo-se ao
conjunto de actos pedagógicos, organizados com vista a atingir um fim muito
preciso. A função de um docente depende das finalidades, valores e imagem da
sociedade.
O termo
representação é utilizado para designar o modo de apreensão de um dado objecto
social por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos, sendo a relação
educativa influenciada pelas percepções que o professor tem do aluno e que o
aluno tem do professor.
O docente privilegia, na sua representação acerca do
aluno, os aspectos cognitivos e as atitudes face ao trabalho, enquanto o aluno
valoriza mais as qualidades humanas e relacionais do docente.
A relação
pedagógica inscreve-se num quadro complexo de relações mediatizadas pelo saber
e pelas condições institucionais criadas para essa transmissão/apropriação. O
saber é, assim, condicionante da relação pedagógica, pois esta
estabelece-se entre quem detém o saber e quem o deve adquirir (numa sala de
aula, o professor e o aluno respectivamente). Aquele que detém o saber, detém
igualmente o poder de controlar e mudar parcelas do real.
Durante muito
tempo, a relação pedagógica reflectiu uma distância entre o professor, visto como o transmissor do
saber e o guardião dos valores tradicionais, e o aluno visto como o receptor humilde e obediente Estrela, 2002: 38
(apud Manuela Pessanha, et al., 240). Esta posição mereceu várias críticas,
assumindo actualmente que o professor, além de ser o perito de uma disciplina,
deve ser o organizador da aprendizagem e o moderador do trabalho do grupo.
Neste contexto, o espaço e o tempo, as actividades desenvolvidas
e os recursos disponíveis são também condicionantes da relação
pedagógica, sendo que a sua gestão influencia o tipo de relação que se
estabelece, bem como a aprendizagem e o comportamento dos alunos. Cabe ao
professor legitimar a sua função, baseando a sua autoridade na competência
profissional, de ordem científica, mas também de ordem relacional.
Coadjuvamos da
mesma opinião, mas no entanto, achamos também importante realçar que não se
deve confundir autoridade com autoritarismo. E, para o esclarecimento de tais
dúvidas, recorremos ao Dicionário de Psicologia de Roland Doron e Françoise
Parot que nos explicam que o termo autoridade
provém do francês autorité e do
inglês authority, o que significa a
influência potencial de um indivíduo sobre um ou vários outros. Esta influência
exerce-se sobre a cognição, atitudes, comportamento, as emoções e a sua
expressão. A autoridade pode ser baseada na competência. Pode igualmente
apoiar-se num sistema de recompensas e de sanções ou, ainda, na legitimidade,
quer dizer, na aceitação de tradições e de valores. Enquanto o termo autoritarismo, do francês autoritarisme e do inglês authoritarianism refere-se a
personalidade autoritária – aquela que é caracterizada pela rigidez, o
dogmatismo, o gosto da autocracia e, igualmente, a submissão à autoridade.
Todavia,
enfatizamos que o professor deve usar da sua autoridade, baseando-se na
competência profissional e científica para que possa construir laços
relacionais afectivos com seus alunos e jamais ser autoritário ou fazer o uso
do autoritarismo.
A
relação professor – aluno
O processo de
ensino-aprendizagem não reduz o ensino à transmissão dos conhecimentos, nem a
aprendizagem à recepção e assimilação desses conhecimentos. Em vez disso,
postula que o aluno constrói o seu próprio conhecimento mediante um complexo
processo interactivo no qual intervêm três elementos chaves: o
próprio aluno, o conteúdo da
aprendizagem e o professor,
que actua como mediador entre ambos.
De facto, este
novo olhar minucioso, enfatiza como factores essenciais para a compreensão dos
processos de interacção professor-aluno:
1º A importância
dada à actividade construtiva dos estudantes na aprendizagem escolar;
2º A forma como se
percebe o papel do professor no aparecimento, manutenção e orientação das
actividades constritivas dos estudantes; e
3º A atenção dada
à estrutura comunicacional e ao discurso educativo na sala de aula.
Relativamente à
actividade construtiva do estudante, enfatiza-se a importância do que ele traz
para o processo de ensino-aprendizagem em contexto de sala de aula, isto é, os
seus conhecimentos, as suas capacidades e competências prévias, os seus
interesses, expectativas e as suas atitudes em relação ao ensino, à escola, ao
professor…
Em relação ao
papel do professor, é-lhe atribuída a função de intermediário entre os
conteúdos da aprendizagem e a actividade construtiva que os estudantes
desenvolvem para os assimilar. Em suma, o professor guia, colabora e orienta o
estudante no sentido de assimilar um conjunto de conteúdos, de se apropriar
deles e de lhes atribuir significados.
A interacção que
se estabelece entre professor e estudantes, deve basear-se na ideia de que a
sala de aula representa um contexto comunicativo, constituído por um conjunto
de regras, cujo respeito permite que o professor e os alunos possam comunicar
uns com os outros e alcançar os objectivos a que se propõem.
Na construção dos
contextos de interacção na sala de aula, são identificados dois elementos
essenciais que são: a estrutura de
participação ou social e a estrutura do conteúdo ou académica.
A estrutura de
participação ou social diz respeito ao que se espera do professor e dos
estudantes; aos seus direitos e deveres durante a actividade. E, a estrutura do
conteúdo ou académica ao conteúdo da actividade escolar e à sua organização.
Portanto, professores e estudantes constroem conjuntamente estas duas
estruturas, pois cada um deles traz para este contexto um conjunto de
competências, experiências, expectativas, valores, etc., que constituem os
denominados marcos pessoais de referência,
a partir dos quais os participantes realizarão uma primeira aproximação à
estrutura social e à estrutura académica da actividade.
Além disso, também se chama a atenção para os
chamados marcos interpessoais de
referência – construídos através da acção conjunta e de intercâmbios
comunicativos entre o professor e o aluno – pois são eles que estabelecem a
forma que tomam as estruturas social e académica e a sua evolução no decorrer
da actividade. Entre os marcos pessoais e interpessoais de referência,
encontram-se os marcos materiais de referência, ou seja, os que dizem respeito
aos materiais e objectos de natureza diversa utilizados na actividade conjunta.
É no cruzamento destes três elementos que se pode compreender a forma como o
conhecimento é exposto, adquirido, partilhado, debatido, percebido ou não
percebido pelo professor e pelos alunos.
Em suma, define-se o processo de ensino-aprendizagem
como um processo sucessivo de negociação de significados, partilhados em
relação aos conteúdos escolares, cuja pesquisa obriga forçosamente à
consideração das suas relações e contribuições de cada um dos seus actores
(professor e estudantes).
A
relação entre estudantes
Outra fonte
principal de relação interpessoal no contexto escolar é a que se estabelece
entre os estudantes.
A turma funciona
como um sistema grupal e social, consistindo num grupo formal, no qual se
geram, frequentemente, subgrupos informais que se agrupam por múltiplas
afinidades. Como consequência, neste grupo verificam-se fenómenos relacionais,
nomeadamente de partilha, de diferenciação de papéis e de expectativas.
Instalam-se redes de comunicação, com regras informais e normas de
comportamento, podendo permitir a constituição de um espírito de grupo, a
criação de sentimentos de solidariedade e de pertença. No interior do grupo
turma, forma-se, inevitavelmente, uma rede sociométrica (aspectos
cognitivo-afectivos) de interacção de cada aluno com os restantes pares.
Os alunos, através
da comunicação estabelecida entre eles, vão apresentando os seus pontos de
vista, formulando as suas hipóteses, envolvendo-se num autêntico processo de
construção conjunta de metas. De facto, as situações de interacção entre alunos
constituem espaços privilegiados onde os mesmos utilizam as suas
potencialidades comunicacionais como instrumentos de aprendizagem. O grupo
funciona como um andaime, onde o conhecimento é construído de forma partilhada.
Os elementos do grupo desenvolvem, resolvem e solucionam problemas e tarefas em
colaboração, podendo aprender uns com os outros, incorporando novas estratégias
e interiorizando conteúdos.
Estudos mostram
que a relação estabelecida entre os colegas traz benefícios a vários níveis,
nomeadamente: do desenvolvimento de
competências sociais, da adaptação às
normas, da superação do egocentrismo,
das expectativas e do rendimento escolar.
Contudo, para que
se produzam estes efeitos favoráveis á aprendizagem, é necessário que o
professor organize as actividades em sala de aulas, de modo a que estas
relações sejam qualitativamente ricas e construtivas. Assim, o professor que
prepara as tarefas em sala de aula, pode induzir diferentes estruturas de
organização social das actividades, tendo em conta os objectivos que define
para cada uma delas, que podem ser de três tipos: (1) cooperativo, (2)
competitivo, ou (3) individualista.
Nas situações cooperativas, os objectivos
perseguidos pelos participantes estão estritamente vinculados entre e o
estudante percepciona que o seu sucesso está relacionado com o êxito do seu
colega.
Nas situações competitivas, cada estudante
só pode alcançar os seus objectivos caso os outros não os atinjam.
Nas situações individualistas, cada
estudante tenta atingir e obter os seus próprios resultados, sem que haja uma
relação entre os seus resultados e os resultados atingidos pelos colegas.
Comparando estas
estruturas de organização social das actividades e das tarefas realizadas pelo
professor, é realçado o facto de as estruturas cooperativas – a partir do
trabalho em pequenos grupos – serem globalmente mais positivas, pois produzem
efeitos ao nível do rendimento, da aprendizagem e da produtividade dos
participantes e favorecem a comunicação e o estabelecimento de relações mais
positivas entre os estudantes: caracterizadas pela simpatia, pela atenção, pela
cortesia e pelo respeito mútuo.
Geralmente os
grupos são mais abertos e fluidos e são construídos sobre a base de variáveis
como a motivação ou os interesses dos estudantes. Em suma, e do ponto de vista
formativo, o ambiente cooperativo é mais favorável a nível social, afectivo e
cognitivo: aumenta o interesse mútuo, leva a um controlo pessoal e a um
feedback mais frequente e fiável, ajuda a superar os fracassos, aumenta o gosto
pela escola e favorece o sucesso escolar.
Como conclusão,
importa referir que, as interacções entre o professor e os alunos, e os alunos
entre si, exigem a construção de sistemas de significados partilhados e são resultados
de dois processos de construção intimamente relacionados. Por um lado, um
processo guiado de construção de conhecimento baseado na interacção entre
professor e estudantes; por outro lado, um processo colaborativo de construção
de conhecimento, baseado na interacção entre alunos. Em consequência, quando
ambos os processos se apoiam e reforçam mutuamente, promovem e facilitam a
construção do conhecimento.
Texto
complementar: A relação escola – família – comunidade
Reflectir
sobre a escola é pensá-la como comunidade educativa, sistema local de
aprendizagem e d formação; é pensá-la enquanto espaço aglutinador, formador de
vários agentes que, partilhando um mesmo território e participando de uma
herança cultural comum, constituem um todo, com características especificas e
com uma dinâmica própria.
A
escola, ao projectar-se como espaço de integração de diferentes parceiros, dá
um duplo sentido à sua lógica de funcionamento. Por um lado, e nível interno, a
abertura da escola á comunidade permite a adequação da instituição escolar ao
contexto social e cultural, à diversidade dos alunos, às suas experiências,
saberes e interesses fazendo com que as aprendizagens escolares e a escola
passem a ter um sentido imediato. Por outro lado, e a nível externo, o
estabelecimento de ensino assume-se como um parceiro na construção e
implementação de um Projecto Educativo Local, tornando complementar a sua acção
educativa com a de outras instituições locais, igualmente com responsabilidades
sociais e educativas.
Deste modo, a
escola, o estudante, a família e a comunidade têm de construir sistemas
abertos, com permanentes trocas entre si, e onde o seu sucesso depende
inevitavelmente da relação dinâmica que estabelecem.
A aprendizagem, o
desenvolvimento e o sucesso dos estudantes são as principais razões para o
estabelecimento de parcerias entre a escola, família e comunidade. Neste
sentido, não só aos professores e aos pais são atribuídos e exigidos diferentes
papéis e funções, mas também à comunidade se colocam tais desafios. Por isso
emerge um novo paradigma para o envolvimento, no qual educadores, alunos e
comunidades trabalham em conjunto para alcançar a meta partilhada de sucesso
para todos os estudantes.
No sentido de
efectivar a democratização e a igualdade das condições do acesso á educação, é
essencial, além de outras medidas, a mediação por parte da escola de acções de
promoção das relações entre a escola e a família e entre a escola e a
comunidade.
Texto complementar: A relação escola família
A escola faz parte
integrante da vida de cada família, pois, na actualidade, é um contexto
indispensável nas vivências do indivíduo.
A família e a
escola são contextos relacionais e vivenciais privilegiados de educação e de
socialização, onde a criança cresce e se desenvolve. A interacção entre estes
dois sistemas (escola e família) tem por finalidade a iniciação da vida da
criança em sociedade e a sua preparação para o futuro.
Está mais do
aprovado que o envolvimento parental na vida escolar contribui para melhorar
significativamente as performances sociais e académicas dos alunos (...) e que
o envolvimento familiar na vida escolar se reflecte positivamente nos alunos,
nos encarregados de educação, nos estabelecimentos de ensino e na própria
sociedade.
Neste sentido, uma
relação de complementaridade entre a escola e a família permite aumentar o
aproveitamento escolar do estudante, fazendo com que as famílias ajudem os
filhos a desenvolverem uma atitude positiva para com a escola. Para além disso,
e como reflexo do envolvimento parental, os encarregados de educação passam a
estar mais motivados para desencadearem processos de formação permanente e para
aumentarem qualitativamente a sua participação nas tarefas colectivas, isto é,
a família começa a perceber o significado da sua participação em outras
actividades cívicas. Por outro lado, não menos expressivo é o impacto que o
envolvimento parental traz aos professores e às escolas, porque o trabalho do
professor pode ser mais fácil e satisfatório se receber a ajuda e cooperação
das famílias e os pais assumirão atitudes mais favoráveis face aos professores
se cooperarem com eles de uma forma positiva.
Actualmente, têm
sido apresentadas várias causas responsáveis pelo fraco envolvimento entre a
escola e a família. Assim, do ponto de vista da escola, o baixo envolvimento
deve-se:
1 – À falta de
tradição de trabalho com os pais;
2 – À falta de
formação inicial e contínua dos professores neste domínio;
3 – Ao facto de
não se reconhecer a importância dos pais como parceiros educativos;
4 – À
representação da escola como uma instituição de ensino e não de trabalho com os
pais ou com a comunidade;
5 – À dificuldade
em se trabalhar com os pais, sobretudo com aqueles que pertencem à classes
socioeconómica e culturalmente mais desfavorecidas;
6 – Ao facto de
ser percebido como desprestigiante pedir ou dar informações de carácter
pedagógico à família.
Do ponto de vista
da família, outras percepções e representações relativamente à escola enquanto
instituição são razões para justificar a fragilidade desta relação e
subsequente baixo envolvimento, nomeadamente devido ao facto de as famílias:
1 – Não
considerarem que têm informações úteis para fornecer á escola;
2 – Não se
considerarem capazes (sobretudo as famílias de classes socialmente mais
desfavorecidas) de acompanhar o percurso escolar dos seus filhos, sentindo que
a escola não lhes pertence;
3 – Terem receio
de que a sua ida à escola possa trazer consequências negativas para os filhos.
Neste duplo
contexto é, sem dúvida, a escola que se encontra em melhor posição para o
favorecimento desta aproximação.
As escolas de
sucesso aproximam-se das famílias para ajudar a aconselhar; procuram nas
famílias a confirmação de altas expectativas escolares para os seus educandos;
clarificam como as famílias podem ajudar no apoio ao sucesso escolar dos seus
filhos; buscam outros recursos na comunidade.
Em suma, a escola
e a família são dois sistemas em interacção e, como tal, a comunicação e o
diálogo, com uma constante e activa busca de significado entre eles, é
inevitável e imprescindível.
CAPÍTULO IV –
COMPETÊNCIAS DE GESTÃO DA SALA DE AULAS
Para que o
professor possa gerir de modo eficaz o espaço da sala de aulas com todas as
suas adversidades, é necessário que este profissional da educação reúna um
conjunto de competências psíquicas, científico-metodológicas e esteja realmente
comprometido com a profissão-missão que é leccionar.
Assim, nas linhas
abaixo apresentamos de forma detalhada as competências a serem adquiridas pelos
professores para gerirem de modo eficaz a sala de aulas.
4.1 – Competências
de gestão de espaço, tempo e conteúdos
Planificar é dar o
primeiro passo para o alcance dos objectivos. Assim, no que concerne a gestão
do espaço e do tempo disponível para leccionar em sala de aulas, é imperioso
que o professor faça o correcta planificação e o uso do tempo que tem para
leccionar, assim como uma eficaz gestão do espaço onde irá leccionar. Por isso,
asseguramos que, as regras definidas em sala de aula têm uma função pedagógica
específica, embora limitadas por padrões gerais de conduta social e impregnadas
de um conteúdo ético de origem social. As regras pedagógicas subordinam-se aos
fins do processo pedagógico e da produção que ele pretende gerar.
Numa sala de aulas,
são necessárias, em geral, poucas regras, sendo importante que o professor
assegure a sua compreensão. Por isso, discutir as regras com os alunos pode ser
o primeiro passo para o seu cumprimento e escrevê-las pode ser igualmente
importante. O professor deve ser consistente no que diz respeito à exigência do
cumprimento das regras e dos procedimentos, para que possa atribuir
consequências adequadas e consistentes quando as regras forem quebradas.
Organizar a sala: a
estrutura da sala de aulas é preponderante, como o número de alunos, a
amplitude de competências dos diversos alunos da turma e a dimensão da sala. O
espaço é de facto, um aspecto importante para desencadear boas aprendizagens,
devendo ser adequado a cada actividade. Do mesmo modo, é importante que seja um
espaço agradável. Se for um local sujo, e em mau estado, a vontade de
permanecer lá e de o estimar será reduzida. Um ambiente acolhedor e
personalizado, que os alunos vejam como sendo seu, pode favorecer a
aprendizagem e o comportamento adequado.
Os professores não
podem controlar, na maioria das situações, a quantidade de espaço disponível,
podendo, todavia, gerir aquele que está disponível. Importa referir que um dos
objectivos da planificação diária visa a disposição e arrumação da sala de
aula, sendo uma das decisões importantes a disposição do imobiliário. Assim, as
filas e as colunas devem ser organizadas de modo que todos os alunos foquem a
atenção para uma determinada direcção (para o professor).
Outro aspecto
importante, ao nível da gestão da sala de aula, relaciona-se com a zona de acção – zona central de
posicionamento do professor e dos alunos que participam mais activamente nas
aulas.
Desta forma,
podemos dizer que os professores estabelecem maior contacto visual com os
estudantes que se situam à frente e no centro, e colocam-lhes mais questões, o
que por sua vez, leva-os a participarem mais nas aulas. Assim, o professor,
tendo consciência desta tendência, poderá utilizar estratégias que permitam
combatê-la, por exemplo, alterando a sua posição ao longo da aula, circulando
pela sala, tendo o cuidado de envolver os alunos situados fora da zona de
acção.
Gerir o tempo:
é necessário que o professor compreenda que o tempo de aprendizagem efectiva é
muito menor do que o tempo destinado pelo professor à aprendizagem, ou seja, os
alunos envolvem-se activa e eficazmente nas tarefas de aprendizagem apenas
durante uma parte do tempo disponibilizado pelo professor. Mas o professor pode
aumentar o tempo de aprendizagem (quando o aluno está eficazmente a aprender)
através das seguintes estratégias:
1ª – Minimizar os
tempos mortos entre actividades;
2ª – Preparar-se e
organizar-se adequadamente;
3ª – Disciplinar
os alunos que causam problemas nas aulas e manter a ordem e o controlo na sala
de aula.
O professor deve
conduzir a sua aula em função dos alunos e do seu comportamento, devendo
verificar quando é o momento de transitar para outra actividade ou outro
conteúdo. Não faz sentido ocupar demasiado tempo com um conteúdo ou com um
assunto que os alunos já dominam. As transições devem ser suaves, isto é, não
se deve interromper constantemente aquilo que os alunos estão a fazer, pois
isso perturba a sua aprendizagem significativa.
Lidar simultaneamente com múltiplas situações: numa
sala de aulas, diversos acontecimentos ocorrem em simultâneo, sendo exigida a atenção
do professor a um conjunto variado de ocorrências. Exemplo: está a trabalhar
com um grupo terá de controlar com o olhar o trabalho de outro grupo.
É importante que o
professor tenha a capacidade de detectar o comportamento inadequado com
precisão e fazer intervenções rápidas e precisas. Para tal, é necessário estar
em cima do acontecimento e ser capaz de detectar um aluno a agir
inadequadamente e lidar com ele sem dar nas vistas para não interromper a aula,
por exemplo, colocando a mão no ombro de um aluno que está a falar com o colega
do lado, sem interromper o que estava a dizer. Há, no entanto, comportamentos
inadequados que, por serem mais graves, exigem a interrupção da aula.
A capacidade do
professor para detectar de imediato os comportamentos desadequados, bem como o
aluno responsável por tais comportamentos é denominada de olho de lince, e a capacidade para detectar e lidar com o
comportamento inadequado, sem interromper a aula, designa-se sobreposição.
Fazer críticas construtivas e apreciações positivas:
fazer críticas construtivas é essencial para uma boa gestão da sala de aula.
Centrar a apreciação no comportamento e não na pessoa pode ser uma estratégia
eficaz. Do mesmo modo, uma crítica a um comportamento desadequado deve ser
transmitida calmamente sem gritar e sem usar sarcasmos, explicando a razão da
chamada de atenção e fornecendo uma alternativa positiva a esse comportamento.
Um professor hipercrítico, que está constantemente a procurar erros dos alunos
e que é pessimista, aumenta a probabilidade de os alunos revelarem
comportamentos pouco adequados. De facto, a forma como o professor vê e analisa
as diversas situações que ocorrem na sala de aula relacionada também com as
suas expectativas, influencia a forma como reage. As considerações positivas
acerca do estudante e a transmissão de expectativas acerca da sua capacidade
para manter o bom comportamento ou alterar o comportamento desadequado, podem
ser essenciais numa sala de aula.
As expectativas do
professor podem influenciar a auto-estima e o comportamento dos seus
estudantes. Estar atento aos sucessos dos alunos, por mais pequenos que sejam,
e reforçá-los é meio caminho andado para obter o sucesso dos alunos.
Gerir
heterogeneidade de individualidades, certamente não é tarefa fácil. Por isso,
lembramos que aquele que irá lidar com alunos precisa adquirir um conjunto de
competências que lhe facilitam a actuação no exercício do seu labor. Nessa
ordem de ideias, reafirmamos que num contexto barulhento, caracterizado por um
ambiente hostil, onde se ignoram as regras e onde os alunos desfiam a
autoridade do professor, a aprendizagem não é a prioridade de ninguém. A gestão
da sala de aula é apenas uma das funções do papel de liderança do professor,
não se podendo separar das outras funções.
Associada à gestão
da sala de aula, aparece muitas vezes a disciplina, encarada como o conjunto de
acções iniciadas pelo professor para minimizar os problemas de comportamento
dos alunos e as distracções e para criar um ambiente de aprendizagem eficaz.
Actualmente, a
indisciplina é uma preocupação de muitos professores, sendo vista como a
violação de normas estabelecidas, o que, em contexto escolar, impede ou
dificulta o decorrer do processo de ensino-aprendizagem.
Um professor eficaz é aquele que efectua uma boa
gestão da sala de aula, nos seus amplos aspectos,
de modo a evitar os conflitos/problemas de comportamento. Em salas bem geridas,
os professores detectam o problema de comportamento antes de perturbar a
dinâmica da aula, sendo um número significativo de repreensões na sala de aula
indicativo de que não está a ser bem gerida. Neste sentido, Lasley em 1989
definiu quatro objectivos que devem ser estipulados pelo professor no sentido
de evitar a indisciplina:
1 – Desenvolver um
conjunto de regras passíveis de implementação;
2 – Responder
consistente e rapidamente ao comportamento inapropriado;
3 – Estruturar bem
as actividades de modo a evitar comportamentos disruptivos;
4 – Responder aos
alunos que manifestam comportamentos disruptivos sem se zangar e sem insultar.
Alguns autores têm
sugerido diversas formas de gerir a sala de aula, umas preventivas, outras de
gestão do comportamento inadequado e perturbador, sendo algumas delas
apresentadas de seguida.
Preparar bem as aulas e mantê-las interessantes: de
todas as planificações realizadas pelo professor, a diária é a que tem recebido
mais atenção. Normalmente, os planos diários esquematizam os conteúdos a ser
ensinado, as técnicas motivacionais a serem exploradas, os passos e as
actividades preconizados, os materiais a utilizar e os processos de avaliação.
Assim, um professor, ao preparar uma aula, deve ter em atenção as
características dos alunos, adequando o nível de dificuldade. Os alunos devem
ser confrontados com algum grau de incerteza, o que implica que uma tarefa não
seja demasiado fácil, pois provoca o desinteresse, mas também não seja
demasiado difícil, pois pode levar a confusões e desistências.
As aulas
interessantes promovem a atenção dos alunos e uma melhor aprendizagem.
Professores monótonos, cujo tom de voz é constante e que mostram pouco
entusiasmo pelos conteúdos abordados, “contagiam” os alunos. Do mesmo modo, um
professor entusiasta promove a aprendizagem e diminui os problemas de
comportamento.
Garantir que todos os alunos estão envolvidos:
os alunos não podem continuar a ser receptores passivos, eles têm de interagir.
O professor deve utilizar estratégias que promovam o envolvimento activo e a
atenção de todos os alunos. A promoção da aprendizagem pela descoberta pode ser
uma boa estratégia para manter os alunos envolvidos. Durante uma aula
expositiva, por exemplo, se o professor colocar questões aos alunos, obedecendo
sempre a mesma ordem, os alunos sabem à partida quem vai ser o próximo a
responder. Mas, se o professor colocar questões ou destinar tarefas aos alunos
de forma aleatória, é provável que todos estejam mais atentos.
Estabelecer regras e procedimentos: a
definição de regras e procedimentos na sala de aula, pode evitar diversos
problemas, constituindo, portanto, uma prática preventiva da indisciplina.
As regras: são as afirmações
que especificam as coisas que se espera que os alunos façam ou que não façam.
Os procedimentos: são
as maneiras de levar a cabo o trabalho e outras actividades.
É essencial
definir procedimentos, de modo a especificar como os alunos devem fazer as
coisas e realizar as actividades necessárias para a aprendizagem (como por
exemplo, especificar quais os recursos da biblioteca que os alunos podem
utilizar, como proceder se quiserem ir à casa-de-banho, etc.).
Enquanto
os procedimentos definem como as coisas se fazem na sala de aula, as regras
especificam comportamentos aceitáveis e não aceitáveis. As regras e os
procedimentos, devem adequar-se ao tipo de alunos, mas também ao contexto. Por
exemplo, definir certas regras para a sala de aula, que vão contra as regras de
funcionamento da escola, pode criar uma situação conflituosa e confusão, quer
para os alunos como para os professores.
Gestão de conteúdos
A gestão
de conteúdos tem, naturalmente a ver com os métodos de ensino utilizados, mais expositivos ou mais por descoberta
orientada. Optou-se aqui por considerar competências de gestão ligadas ao
modelo de acontecimentos instrucionais, à aprendizagem por questionamento, à
aprendizagem por recordação significativa e, ainda, o grau de dificuldade da
tarefa e à informação fornecida aos alunos.
Acontecimentos
instrucionais
Os autores (Gagné, Golas e
Keller, 2005) propõem o modelo de acontecimentos instrucionais (Instrucional
Eventes Model) que relaciona as fases de processamento da informação, durante a
aprendizagem que o aluno faz com as fazes do ensino que o professor deve seguir
(Cfr quadro abaixo).
Fazes do processamento da
informação na aprendizagem e no ensino segundo Gagné (Adaptado de Gagné, Golas e
Keller, 2005).
|
Processo
de ensino (Professor) |
Processo
de aprendizagem (Aluno) |
|
1. Definição/Comunicação dos objectivos |
1. Despertar a atenção do aluno (alerta) |
|
2. Exposição do conteúdo da aula |
2. Acompanhamento da exposição (Percepção
selectiva e Memorização) |
|
3. Apelação aos conteúdos memorizados |
3. Ligar a nova informação com a já conhecida
(Recordação dos contéudos memorizados) |
|
4. Avaliação das competências adquiridas |
4. Aplicação do conhecimento adquirido |
Fonte: Autor
Consideremos um aluno que se
isola dos outros, retirando-se para estudar para um exame.
Numa situação efectiva deste
tipo, podem diferenciar-se fases específicas do processo de aprendizagem. O
aluno poderá por começar por anular distrações, ver bem o que é preciso saber,
ir relacionado o que lê com outras coisas que já sabe, ir sublinhando as frases
mais importantes, esforçar-se por compreender os conceitos para assim os
memorizar melhor; depois poderá fazer exercícios, ver se estão correctos;
poderá ainda, rever para fixar melhor e aplicar aquilo que estudou em outras
situações.
Atendendo a sequência das fases
ocorridas no processo de aprendizagem, o professor deverá adoptar um processo
de ensino com fases sequenciais correspondentes, com tempos previamente
planificados e preparados, com objectivos específicos como:
1 – Captar a atenção do aluno
(anulando distrações, recorrendo a novidade);
2 – Mostrar os objectivos e a sua
importância;
3 – Ir ligando a nova informação
com a que o aluno já conhece (recordando algo);
4 – Salientar o mais importante
(evitando pormenores irrelevantes);
5 – Avaliar o desempenho.
4.2 – Competências
de gestão conflitos e da comunicação
O clima e o
funcionamento da sala de aula são influenciados pelas características do
professor, pelas características dos estudantes (como experiências familiares,
o temperamento, as competências linguísticas, as competências sociais e
interpessoais) e pelas características do próprio contexto onde decorre a aula.
Numa sala de aula
é extremamente importante que o professor seja capaz de “gerir os seus alunos”
de modo a criar um ambiente propício à aprendizagem.
A gestão da sala de aulas
define-se como o conjunto de técnicas e
competências que permitem a um professor controlar os alunos de forma eficaz,
de modo a criar um ambiente positivo de aprendizagem para todos os alunos.
O conceito de
gestão da sala de aulas refere-se a um conjunto de acções levadas a cabo pelo
professor para criar um ambiente propício de ensino e de aprendizagem,
adequando o ambiente físico, clarificando as regras e os procedimentos, de modo
a manter o envolvimento dos alunos nas tarefas e a atenção aos conteúdos a
aprender (Veiga, 2007; Woolfolk, 2011; Yilmaz, 2009).
O stress dos professores relacionado com a
falta de competências de gestão da sala
de aula, e consequentemente a indisciplina
dos alunos, são alguns dos factores mais influentes no fracasso pessoal e
profissional dos professores, sobretudo nos mais jovens e durante os primeiros
anos de actividade.
Estudos mostram
que de um modo geral as alterações nas famílias, o fosso entre ‘’o universo
cultural do meio de pertença e o meio cultural escolar’’, aliados a fraca
preparação do docente durante a sua formação são alguns dos factores que
concorrem para a baixa competência de gestão da sala de aula.
A gestão da sala
de aulas requer várias competências psicoeducacionais do professor e pode
prevenir e reduzir muitos comportamentos perturbadores, possibilitando que o
ensino e a aprendizagem sejam eficazes. Tais competências podem ser aprendidas
e promovidas atendendo a complexidade dos ambientes de aprendizagem. A sua
utilização pelos professores deve ser entendida como um meio de criar ambientes
de ensino onde a aprendizagem ocorra e não como um fim em si mesmo.
A prevenção de
comportamentos perturbadores pode ser operacionalizada procedendo a prévia
adequação dos espaços da sala de aula, estabelecendo procedimentos, regras
claras e rotinas, estruturando os tempos e as actividades a serem
desenvolvidas.
A actuação do
professor na sala de aula também pode ser analisada de acordo com a linha de
desempenho da autoridade, na qual inclui diferentes estilos: autoritário, participativo, permissivo, e
inconsciente (Veiga, 2007; Woolfolk, 2011).
A gestão
de comportamentos tem muito a ver com o tipo autoridade ou estilo educativo
adoptado pelo professor para gerir a sala de aulas e, isso inclui aspectos
como: regras e procedimentos,
comportamento ‘’ignorado’’, comunicação não-verbal, feedback e sequências
lógicas.
Regras e
procedimentos
A natureza complexa das relações
da sala de aulas exige a sua estruturação através do estabelecimento de regras.
Salientar ao aluno a necessidade de tais regras constitui elemento chave
(Kayikci, 2009), apud Veiga, 2013. O conhecimento por parte do aluno da forma
como proceder nas diferentes situações da aula pode prevenir muitos
comportamentos perturbadores. Embora o regulamento interno da escola possa
contemplar muitas das regras fundamentais, alguns procedimentos podem mais
específicos de cada disciplina ou professor. Nas várias situações, importa
garantir a consistência das regras, prevenindo que determinado comportamento
seja permitido por um professor e proibido por outro. A existência de regras
claras e consistentes podem prevenir comportamentos como chegar atrasado à
aula, não trazer os materiais, falar sem levantar o braço e esperar a sua vez,
não fazer os trabalhos de casa.
Para além da sua importância
enquanto elementos fundamentais à criação de ambientes positivos de
aprendizagem, as regras e o seu cumprimento contribuem para o desenvolvimento
pessoal e social dos alunos, sobretudo quando são entendidas como possíveis de
melhoria, estão ao serviço de todos, e os alunos estão envolvidos na sua
elaboração (Brookfield, 2006), apud Veiga, 2013, em especial na determinação
das consequências a aplicar aquando da violação das regras.
Todavia,
lembramos que as regras devem ser formuladas positivamente, devem ser claras, sucintas,
e de fácil interiorização.
Comportamento
ignorado
Alguns comportamentos
inadequados podem ser ‘’ignorados’’, sobretudo nos casos em que a intervenção
do professor poderia trazer mais perturbação do que a opção de fazer de conta
de que se está a ‘’ignorar’’. Trata-se uma estratégia que pode ser utilizada
face a comportamentos que não são importantes, graves ou frequentes, que não
são percebidos pelos outros alunos ou que raramente ocorrem em determinado
aluno. Quando bem utilizada, essa estratégia leva à diminuição de tais
comportamentos e mesmo a sua extinção no sentido behaviorista do termo,
desaparecendo do repertório comportamental do aluno.
Comunicação
não-verbal
Acontece, porém, que alguns
comportamentos inadequados, mesmo não sendo graves nem frequentes, não podem
ser ‘’ignorados’’. De acordo com (Kayikci, 2009), idem, os professores procuram
prevenir o comportamento inadequado recorrendo sobretudo ao contacto visual. A utilização de
elementos de comunicação não-verbal (o professor tem gestos ou posturas que
transmitem informação), como o contacto visual (o professor olha directamente
para o aluno ou levanta as sobrancelhas para expressar desaprovação), um gesto
de silêncio ou uma aproximação do aluno pode ser suficiente para repor o
envolvimento na tarefa.
Várias
pesquisas sobre os efeitos do contacto visual sugerem que este pode levar o
aluno a um maior envolvimento na tarefa (Mason, Bosques, e Macrae, 2004), apud
Veiga, 2013. Mas, lembramos que dada a heterogeneidade dos alunos e seus
condicionalismos, a utilização de elementos de comunicação não-verbal requer
especial consideração pelos seus contextos.
Feedback
A inacção
de um professor face a um comportamento perturbador pode fazer com que esse
comportamento se propague a outros alunos, ocorrendo o chamado efeito de onda (ripple effect). A
eficácia da actuação do professor requer que o feedback seja dado o mais próximo possível do comportamento que se
quer alterar. Por isso, informar o aluno da inadequação do comportamento
ocorrido e descrever com objectividade como deverá passar a agir é uma forma
específica de feedback e uma das mais
importantes competências do professor experiente.
Competências de gestão de
comunicação
O que se
desenvolve na sala de aula, o que fazem o que dizem os diferentes participantes
é maioritariamente consequência de um processo de construção conjunta, isto é,
os contextos de interacção são construídos pelas pessoas ao actuarem.
Concernente a
temática, (Coll e Solé, 1996) salientam algumas particularidades dos traços
distintivos do discurso educacional no espaço da sala de aula, comparativamente
com outros contextos, nomeadamente a sala de aulas é o único contexto
comunicativo no qual um dos participantes, o professor, formula perguntas
continuamente cuja resposta já conhece; No qual a fala do professor ocupa mais
tempo que a fala dos alunos, em que nela as perguntas têm uma presença
considerável e no qual a repetição de uma pergunta pelo professor, a pois uma
resposta do aluno, deve levar a interpretar tal resposta como incorrecta.
Como em qualquer
contexto, a comunicação na sala de aula tem uma dimensão não-verbal muito
importante: muito do que comunicamos, de forma intencional ou não, transparece
da nossa linguagem corporal, do tom de voz e dos gestos. O sorriso, o olhar, o
franzir do sobrolho, o trejecto, os movimentos da cabeça, que aprovam ou
desaprovam, os gestos da mão e dos dedos que designam os alunos e os convidam a
exprimir-se ou a parar, as posturas corporais indicam a surpresa, a
expectativa, o interesse, a decepção etc., são espontaneamente descodificado
pelos alunos em sinais positivos, negativos ou neutros.
O mesmo se poderá
dizer da linguagem não verbal dos estudantes, percebida e interpretada pelo
professor e pelos colegas.
O professor deve
ser um bom comunicador, o que exige que a comunicação se faça em dois sentidos.
Uma boa comunicação, no contexto de sala de aula, implica que o professor
garante a compreensão da mensagem por todos os estudantes. Por vezes, este
objectivo não se atinge com facilidade, devido a diferença dos códigos
linguísticos do professor e dos alunos. A linguagem do professor deve ser
simples, coloquial, rica em imagens e em comparações. Contudo, a simplicidade
não é sinónimo de superficialidade ou falta de rigor!
Para os estudantes
perceberem a mensagem, é necessário que prestem atenção ao professor, o que nem
sempre acontece.
A Psicologia da
Educação fornece aos professores algumas sugestões práticas a este nível, como:
1º - Não utilizar
a voz com intensidade superior ao barulho provocado pelos alunos, se necessário
fazer silêncio até os alunos acalmarem;
2º - Transmitir de
uma forma lúdica, clara e direita as mensagens (por exemplo dramatizar);
3º - Introduzir
voluntariamente um erro, para ver se os alunos o detectam (que deve ser sempre
corrigido);
4º - Dar aos
alunos oportunidades para intervirem;
5º - Utilizar
piadas ou pequenas anedotas, que podem servir para descongestionar as aulas e
para introduzir conceitos.
A distribuição
equitativa da comunicação para todos os elementos da turma é essencial, apesar
de se verificar que em muitas salas de aula a comunicação professor-aluno é
distribuída de forma irregular, centrando-se num pequeno grupo de estudantes.
Mas, tal como se disse anteriormente, as características do aluno e da própria
sala de aula podem influenciar a distribuição da comunicação.
Na sala de aula,
professores e alunos agem em função do modo como percepcionam as situações. Têm
sido realizados diversos estudos sobre a forma como o discurso, o comportamento
e as atitudes do professor são diferentes em função daquilo que espera dos alunos.
Assim, um aspecto particularmente importante da comunicação que ocorre em sala
de aula é a comunicação das expectativas do professor, podendo estas
influenciar o clima da sala de aula, o comportamento dos alunos e até mesmo a
sua realização académica. Também as expectativas dos alunos em relação ao
professor, o que estes (alunos) esperam dele (professor), afectam a percepção e
interpretação de tudo aquilo que faz e diz, podendo chegar a modificar o
comportamento do professor. Finalmente, as expectativas que o aluno tem acerca
de si próprio podem ter um papel preponderante no seu comportamento e na sua
aprendizagem, podendo o professor influenciar positivamente (mas de forma
realista) essas expectativas.
Bibliografia Básica
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Roland & PAROT, Françoise (2001). Dicionário de Psicologia. Climepsi
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Sílvia. Psicologia da Educação (2011). A observação científica como metodologia
de estudo, 2ª Edição Paulinas Editora, S. Paulo
Ø PESSANHA,
Manuela; BARROS, Sílvia; SAMPAIO, Ruth; SERRÃO, Carla; VEIGA, Sofia e ARAÚJO,
Costa Sérgio (2010). Psicologia da Educação (Colecção Universidade Ciências da
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Bibliografia
Recomendada
Ø CHIAVENATO,
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(1992). 2. ed. São Paulo: Makron Books.
Ø COHEN,
A. R. Comportamento organizacional: conceitos e estudos de caso (2003). Rio de
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